Fr. Gonçalo de Lagos, OSA

S. Gonçalo nasceu em 1360, na cidade algarvia de Lagos, segundo a tradição, numa casa situada junto das Portas do Mar, precisamente no local onde hoje, e de há séculos, se encontra o seu nicho e imagem, que a gente lacobrigense tanto venera.

Posteriormente tomaria o sobrenome de Lagos, por ser esse o costume da época entre os frades, como por exemplo, Santo António de Lisboa.

No decorrer de uma visita de dias – ou meses – a Lisboa, decidiu entrar no Convento dos “gracianos”, nome vulgarmente dado, naquele tempo, aos frades da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho que viviam no Convento de Nossa Senhora da Graça. A data deste acontecimento tem sido objecto de controvérsia, pensando-se que S. Gonçalo teria entre 20 ou 21 anos.

Aproveitando a proximidade dos “Estudos Gerais” - que o rei D. Dinis fundara em 1290, e que, depois de terem sido por duas vezes transferidos para Coimbra, estavam novamente em Lisboa desde 1377 – Gonçalo foi um dos indicados para ingressar nos estudos universitários. Saiu-se tão brilhantemente que logo os mestres o convidaram para se formar em doutor de Teologia e integrar-se no corpo docente. Os seus conceituados livros, os seus primorosos trabalhos de iluminura e as suas inspiradas composições musicais são a confirmação das suas virtualidades intelectuais e artísticas.

Todavia Gonçalo não se entusiasmou pela ideia e nunca chegou a receber quaisquer graus académicos. A sua humildade e vocação apontavam-lhe outros caminhos e outros trabalhos. Ordenou-se sacerdote para se dedicar exclusivamente ao ministério da palavra e à prática da caridade.

Apenas cinco anos depois de haver professado, começou a governar. Sigamos os escritos de Frei António da Purificação, também da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho:

“A primeira Casa em que o achamos Prior, foi uma que tivemos junto da vila de Lourinhã, no arcebispado de Lisboa, que se intitulava de São Lourenço, a qual foi extinta pelo venerável P. Luís de Montoia, no ano de 1555, sendo Vicário Geral desta Provínica. E ficou somente dela a Igreja, que hoje é uma paróquia do mesmo título. Esta governou-a o santo varão pelos anos do Senhor de 1394 e nos dois anos seguintes.

“A outra Casa, que, porventura não seria a segunda, é a de Nossa Senhora da Graça de Lisboa, da qual, em algumas escrituras, se acha Prelado, no ano de 1404. Estava, naqueles tempos, este Convento imediatamente debaixo da protecção dos Padres Gerais, como ainda hoje estão muitos de outras Províncias, principalmente da Itália e se chamam Conventos do Geral, porque, por sua conta, corre o provimento e disposição deles, assim no espiritual como no temporal.

“A terceira Casa em que achamos Prior ao nosso Santo, é a de Santarém, pelos de anos de Cristo, nosso Redentor, de 1408, que eram 32 depois da sua fundação. Em seu tempo, se acabou de aperfeiçoar o edifício deste Convento com os rendimentos da nova herdade da Ocharia, de que o Santo Prior tomou posse no ano seguinte de 1409.

“A quarta e última Casa foi a de Torres Vedras, onde morreu santamente, aos 15 de Outubro do ano de 1422, havendo largos dez anos que era Prior dela, que são 156 desde a sua primeira fundação.

“Era notável o modo com que, sendo Prelado, se havia no governo dos Conventos. Porque, lembrando-se do que Cristo nosso Redentor dissera a seus discípulos, que não viera ao mundo, sendo Senhor e Rei dele, a ser servido, senão a servir, todos os ofícios baixos e humildes do Convento fazia por si, sendo muitas vezes cozinheiro e porteiro e sempre enfermeiro, pela grande caridade que tinha com os doentes e compaixão das suas enfermidades.

“E porque os Convento de Lourinhã e Torres Vedras eram muito pobres e viviam de esmolas, e padeciam às vezes, por isso, muitas necessidades, ele, por si mesmo, procurava remediá-las tomando os alforges às costas e pedindo nas terras em que estava e nos lugares vizinhos.”

Actividade diversificada

Frei Gonçalo foi especialista em “escrever livros”, em copiar e “iluminar” obras de edificação para os seus confrades. Nesta última actividade, foi verdadeiramente mestre, evidenciando bem que, ao cursar os “Estudos Gerais”, aprendera Artes, que incluíam a Música, a Iluminura, a Gramática e a Dialéctica. 

Dos seus trabalhos desta época conhece-se um “Livro de Coro”, escrito propositadamente para o Convento da Graça de Santarém, e um “Comum dos Santos”, que ficou célebre na sua Ordem e, por longos anos, serviu como modelo no Convento da Graça de Lisboa, onde era tido como obra de muita estima e valor. 

Há ainda notícia de alguns outros escritos, dispersos e interessantes, destinados à catequese, que foi a sua especial vocação e a sua quase única ocupação nos últimos anos da sua vida terrena. 

Sobre música, os biógrafos mais antigos são unânimes em afirmar que a cultivara com esmero e capacidade, tendo composto “livros de cantochão para serviço do Coro, com inteira aprovação do seu Prelado” (Frei António da Purifica çáo, Op. cit.). 

No Convento de Nossa Senhora da Graça de Lisboa, quando do seu mandato de Prior, restaurou todo o rigorismo da Regra de Santo Agostinho, em cujo cumprimento parece que os eremitas lisboetas se haviam relaxado um pouco. 

No Convento de Santarém, apenas um ano depois de ali haver chegado como Superior, em 1409, assinava a escritura de posse efectiva da Herdade da Quinta da Ocharia, doada pelo generoso Conde de Ourém, em 1380, e que tantos dissabores haviam custado, anteriormente, à Ordem. 

Foi ele também que iniciou as grandes obras de acabamento e aperfeiçoamento do edifício do Mosteiro que fariam dele uma das maiores e mais belas casas portuguesas da Ordem. De tal maneira que, quatro anos depois, quando, findo ali o priorado, Frei Gonçalo se retirou para Torres Vedras, o Convento de Santarém tinha prosperado ao ponto de ser considerado um dos mais ricos da sua Ordem em Portugal, e, ao mesmo tempo, aquele em que a Regra tinha mais rigorosa observância.

Mas, não há dúvida que a sua maior e contínua actividade andou à volta daquilo que nunca dispensou: a Catequese e a Pregação. 

Dedicação pastoral

Conservaremos a maneira clássica de escrever as coisas no século XVII, que nos traz o gosto do ingénuo e original:  “Ardia (o Santo) em tão vivas chamas de amor de seu Senhor, em que cada vez mais razões achava para O amar, que lhe dava grande pena que não caíam todos os homens na clareza delas, nem empregavam todo o seu amor, como lhes merecia. E daqui lhe resultava na alma um ardentíssimo desejo de O ver amado e servido de todos. 

“E considerando consigo como poderia fazer isto com mais proveito e mais pessoas, inventou uma maneira de pregação ao povo de Torres Vedras, onde estava por Prior, tanto mais proveitosa quanto era mais contínua e mais familiar aos que dela tinham necessidade. A qual era pôr-se todos os dias de serviço, desde acabado de cantar Completas, no Coro, antes do sol posto, até uma hora da noite, assentado à porta da Igreja do Mosteiro velho, que estava na estrada mais corrente da serventia da Vila, e por onde passavam todos os trabalhadores que vinham dos seus serviços e ocupações, ou que por outra ocasião, se vinham recolher ao lugar, e ali chamava aos que passavam e os admoestava com grande afecto e caridade. 

”E por esta razão, se ajuntavam tantos, cada dia, a ouvir sua doutrina que ficava sendo um grande concurso de gente e a pregação muito proveitosa, e com isto trazia todo aquele povo, em especial a gente de serviço e plebeia. Ali o achavam sempre àquela hora os aflitos e atribulados para os consolar; os necessitados e pobres para lhes acudir em suas necessidades, porque a todos remediava como podia. 

“Deste ardente desejo que tinha da salvação das almas lhe nascia também andar ajuntando os meninos pelas ruas, para lhes ensinar a doutrina cristã. E, como os tinha juntos, fazia-lhes a todos outra muito devota pregação, acomodada às suas idades; e depois lhes fazia dizer a doutrina cristã. E, como para aquela idade pueril, todas as coisas de siso são desgostosas, para que não fugissem dele, trazia sempre as mangas cheias de pedaços de pão e de fruta, de verónicas, contas e registos de Santos, que ele mesmo, como grande escrivão que era, de livros, debuxava e iluminava para este fim. 

“Com estas e outras prendas, que os meninos estimavam, os atraía a si, de maneira que lhe eram todos tão familiares que o não viam na rua, sem que se fossem logo a ele a apalpar-lhe as mangas, a ver o que lhes trazia. E, muitas vezes, se ajuntavam a brincar com ele, como se fosse outro da sua idade. O que tudo consentia o servo de Deus com grande alegria, sofrendo todas essas meninices aos meninos, guardando a doutrina do Apóstolo que diz de si que todas as coisas se fazia com todos para que assim aproveitasse a todos” (Frei António da Purificação). 

É o actual princípio da “encarnação” ou “inculturação” pastoral, já praticado primorosamente - como acabámos de ver - por São Gonçalo de Lagos. Não há verdadeira evangelização sem autêntica encarnação. 

Amigo dos pescadores

Para explicar a devoção que, desde sempre, lhe dedicaram os pescadores, sobretudo, os da região do Algarve, muito contribuiu o milagre que nos transmitem quase todos os seus biógrafos. Milagre que está primorosamente representado em painéis de azulejos na portaria da Igreja de Nossa Senhora da Graça de Torres Vedras. 

“No ano de 1437, que são 15 depois da sua morte gloriosa, aconteceu que certos homens do Reino do Algarve, naturais de Lagos, pátria do mesmo Santo, se embarcaram para Lisboa em uma caravela, entre os quais ia um sobrinho do mesmo servo de Deus, filho de um irmão. 

“Engolfados no mar, levantou-se uma tempestade tão severa que deu com a embarcação à costa, e a fez em pedaços, com a morte de todos os que nela iam, tirando dois que puderam lançar mão, ambos, de uma tábua. Mas, como o ímpeto das ondas os levasse, muitas vezes, aos penedos da praia, lastimavam-se gravissimamente. Pelo que, vindo a faltar as forças a um deles, lhe fugiu a tábua e se afogou. 

“Ficou o outro a quem também as forças iam falecendo. E este era o sobrinho do Santo; e, vendo-se ir pelo caminho dos seus companheiros, posto em tamanha angústia, começou a chamar por Deus e por São Gonçalo, dizendo: Tio Santo, Tio Santo, salvai-me! 

“Eis que neste ponto viu na praia um frade agostinho que o animava e lhe dizia que não temesse. Entrou então o frade pelo mar sobre as ondas e tomando-o pela mão, o tirou à praia, e Lhe disse: Eu sou o tio por quem chamaste. Ide-vos curar até que cobreis forças para poder caminhar. E já que em vida me não visitastes, fazei-o agora. Ide ao Mosteiro de Santo Agostinho, de Torres Vedras, onde o meu corpo está sepultado, e fazei aí oração e recebereis aí saúde perfeita das chagas e feridas que neste naufrágio recebestes.

”Fê-lo assim o mancebo e dormindo aquela primeira noite ao pé da sepultura, acordou, pela manhã, de todo tão sem dor, ou sinal algum das feridas que recebera. 

“Do que e da repentina cura das feridas se fez um público instrumento autêntico em dois originais, um dos quais se lançou no arquivo daquele convento, e o outro que se levou ao Algarve para glória de Deus e maior veneração do seu servo” (Frei António da Purificação).

O conhecimento do milagre a favor do seu sobrinho avivou consideravelmente a devoção dos marinheiros a São Gonçalo, que passaram a invocá-lo e a colocar-se sob a sua protecção, a ponto de os pescadores de Lagos tomarem a São Gonçalo por seu Padroeiro e Patrono da sua Corporação (a Confraria do Corpo Santo); e, por isso, anos depois, muitas imagens de São Gonçalo passaram a ser representadas com uma pequena caravela suspensa de uma das mãos. 

“Aliás, acredita-se que Frei Gonçalo voltou a aparecer, pelo menos mais uma vez, aos seus patrícios navegantes sobre as águas do mar, no ano de 1489, quando a tripulação de uma caravela lacobrigense, quase a naufragar, pediu a protecção e o auxílio do servo de Deus; este apareceu-lhes e, depois de recomendar aos marinheiros aflitos que invocassem o patrocínio de Nossa Senhora da Graça, aplacou a tormenta, de sorte que uma grande bonança se seguiu. 

“Prova da devoção dos marinheiros a São Gonçalo é ver com que frequência se pode ver representado com um crucifixo na mão esquerda e um livro na direita em frente do mar, ao qual parece lançar a bênção; sobre as águas, um barco que se assemelha a uma nau com o seu aparelho alto, mas com as velas recolhidas, servindo de fundo, em terra, uma espécie de capela, ao gosto do século XVIII. 

“Foram estes e outros casos semelhantes, e ainda o facto de São Gonçalo pertencer a uma família de pescadores, que propagaram com certeza o seu culto entre os marinheiros e gente do mar, sobretudo na região do Algarve.”

 O Padroeiro

Inteirado D. João II dos milagres que se multiplicavam em Torres Vedras por intercessão de S. Gonçalo de Lagos, escreveu à Câmara da dita Vila uma cartam datada de 26 de Setembro de 1495, em que fazia o elogio de S. Gonçalo e felicitava entusiasticamente o povo torreense por ter visto florescer no seu seio tão altas virtudes e operar tais maravilhas. 

Em consequência desta carta, a Câmara de Torres Vedras proclamou, a 13 de Outubro do mesmo ano, São Gonçalo de Lagos “Defensor e Padroeiro da Vila e seu Termo”.

Poucos anos depois, a Câmara de Lagos, talvez igualmente por sugestão ou determinação do mesmo D. João II, que à mesma Câmara apresentara também felicitações, mas desta vez por ter sido aquela Vila berço de um filho que tanto a enobrecia, mandara a Torres Vedras dois Senadores Municipais para obterem ali uma relíquia. Esta relíquia foi recebida em Lagos com grandes festas pelo bispo do Algarve, D. Fernando Coutinho. E naquele mesmo ano da chegada da relíquia à terra natal, possivelmente até durante as próprias solenidades da sua festiva recepção, segundo declarou o Senado da Câmara alguns séculos depois, foi declarado que “a Nobreza e o Povo de Lagos juraram São Gonçalo por seu Padroeiro e Protector”.

A 27 de Outubro celebra-se a Memória facultativa do Beato Gonçalo de Lagos, obrigatória na Diocese do Algarve e no Patriarcado de Lisboa.