Beato Vicente de Santo António

Sob a designação de “Beatos Mártires do Japão” estão englobados 205 mártires (padres e leigos) que deram a vida pela fé nos inícios do século XVII, e que foram beatificados a 7 de Julho de 1867 pelo papa beato Pio IX. Destes mártires, doze foram agostinhos: 5 padres, e sete leigos japoneses, que eram catequistas, irmãos terciários e membros da Confraria de Nossa Senhora da Consolação fundada ali pelos Agostinhos. A família agostiniana celebra a festa destes doze Agostinhos Mártires do Japão no dia 28 de Setembro.

Os primeiros missionários que chegaram ao Japão foram os jesuítas, seguindo as pegadas de S. Francisco Xavier, que faleceu às portas do país em 1552. Depois deles chegariam outras ordens religiosas, e entre eles os Agostinhos, a partir de 1602. Muito cedo, de maneira calma e escondida, entre todos fizeram germinar a semente do Evangelho entre o difícil povo japonês. Mas nem todos os missionários agiram de maneira prudente, de modo que o Governo central acabou por reagir. Naquela altura governava o país a família Tokugawa, que agiam como regentes (shogun) em nome do Imperador do Japão. Eles consideraram a propagação do Evangelho como uma intromissão inadmissível de costumes estrangeiros nas tradições milenárias do povo japonês, sustentadas no culto à figura do Divino Imperador. Em 1614 saiu um decreto contra o cristianismo que ordenava fechar as igrejas e obrigava aos fiéis a abandonar aquela fé, condenando-os de facto à clandestinidade. A partir de 1617 as dificuldades e os tormentos fizeram, infelizmente, com que muitos renegassem, inclusive alguns missionários europeus. Mas grande seria também o número daqueles que preferiram morrer antes do que renegar de Cristo.

De entre eles destacaremos agora o único mártir Agostinho procedente de Portugal: Vicente Simões de Carvalho. Ele nasceu em 1590 na cidade de Albufeira, no Algarve. O pai dele, António Simões, era médico, e os conhecimentos que aprendeu ao pé dele iam revelar-se muito úteis no futuro. António e a sua esposa, Catarina Pereira, enviaram o filho para Lisboa aos 12 anos de idade para estudar. Aluno brilhante e com jeito para liderar, experimentou em Lisboa as tentações da vida fácil, como ele mesmo confessa numa das suas cartas. Após o falecimento da sua mãe a sua vida mudou, e sentiu a chamada para o sacerdócio, sendo ordenado em 1617, ainda em Lisboa. Sentindo a inquietude missionária, partiu para México. Lá conheceu a Ordem de Santo Agostinho, no seu ramo dos reformados recoletos, e entrou no noviciado, tomando o nome de Vicente de Santo António. Tendo ouvido falar das missões do Oriente e das dificuldades e perseguições dos cristãos, pediu para lá ir. Em 1620 chegou às Filipinas, onde professou os seus votos como membro da Ordem. Um ano depois, em Abril de 1623, partiu para o Japão, onde chegou em Outubro do mesmo ano. Na cidade de Nagasaki foi acolhido pelo Agostinho mexicano Bartolomé Gutiérrez.

Começou assim uma vida de clandestinidade pelas ruas da cidade, mascarado de caixeiro ambulante, adotando nome e roupas diferentes: pregava nas casas que lhe abriam as portas, consolava os perseguidos, e provocava mais conversões. Seis anos mais tarde, em 1629, ele e os outros colegas foram delatados por um renegado ex-cristão, e foram presos. Após três anos de prisão e de tormentos o P. Vicente, junto com o P. Bartolomé e o P. Francisco de Jesus, morreram queimados vivos numa fogueira, em Nagasaki, a 3 de Setembro de 1632.

São admiráveis as cartas que escreveu o beato Vicente aos seus amigos e discípulos, já durante os tempos de prisão. Estas cartas foram editadas num livro titulado Cartas do Japão (Ed. Távola Redonda) em 2001.

A diocese do Algarve honra a memória do beato Vicente de Santo António, mártir, no dia 7 de Setembro. E a sua cidade natal, Albufeira, celebra-o neste mesmo dia com festas populares e uma procissão.